A Assembléia Geral da ONU declarou o ano de 2010 o Ano Internacional da Biodiversidade para conscientizar, solucionar e salvaguardar a diversidade biológica ameaçada em nosso Planeta, para garantir o futuro da humanidade.
A biodiversidade engloba a variedade de genes, espécies e ecossistemas que constituem a vida no Planeta. Assistir passivamente a extinção da biodiversidade é decretar nosso suicídio e diminuir sensivelmente as chances de vida e bem–estar da humanidade.
A humanidade perdeu a capacidade de integração à Natureza ao construir um mundo artificial que se sobrepõe a tudo que é vital. Foi decretada uma segunda “Queda do Paraíso”. Para estabelecermos uma nova aliança com a Natureza será preciso, antes de tudo, assumir nossa máxima culpa pela atual crise ambiental.
A maioria das culturas nos mais distantes rincões planetários sempre enfrentou – é bom que se diga – a Natureza como um bem ilimitado, privado e pronto para ser explorado. É justo considerar essa atitude canibalesca porque está em jogo a própria sobrevivência da espécie humana. Porém, após séculos de exploração da Natureza é impensável mantermos a mesma atitude canibalesca. Para ilustrar a regressão do comportamento humano evocamos um diálogo do filme Matrix (1999), no qual um personagem expressa todo seu desprezo pela raça humana, pela prepotência e egoísmo do homem em relação à Natureza: “Vocês não são mamíferos, pois todo mamífero cria instintivamente um equilíbrio com o meio ambiente... mas os humanos não! Eles se movem para uma área, se multiplicam até todos os recursos se esgotarem e para poder sobreviver, se movem para outra área. Essa atitude é similar a do vírus, fazendo do ser humano uma doença; o câncer do planeta”. E, por fim, afirma: "E nos somos a cura!” .
Como recuperar o nosso sentido de humanidade? Embarcamos numa promessa de felicidade pueril e finita em uma ordem materialista e funcional; mecanicista e quantificável. A revolução dos valores é exigência básica que garante a realização de um novo pacto social. Prenuncio de longa jornada e grandes problemas.
Na atualidade, a Amazônia, símbolo da luta pela preservação da natureza, é a medida de nossa consciência ecológica, sua biodiversidade é única e a mais rica do mundo. Estima–se que há cerca de um milhão de espécies animais e vegetais, que representam a metade das espécies registradas em todo o planeta. São cerca de 2500 tipos de peixes, 2500 tipos de pássaros, 3500 tipos de árvores com mais de 30 cm de diâmetro. Cerca de 70% das drogas desenvolvidas no combate ao câncer foram obtidas a partir de plantas de florestas tropicais. Essa biodiversidade constitui–se na reserva estratégica de sobrevivência humana.
Porém, o reconhecimento da riqueza da Amazônia, área privilegiada da biodiversidade no mundo, não poder servir de justificativa para o controle internacional dessa área. O discurso universalista dos ecologistas pode fazer crer que é chegada a hora da humanidade se dar as mãos e romper as fronteiras das nações. Questionamos: por que começar com a Amazônia? Podemos internacionalizar Veneza, Paris, Nova York, ou também internacionalizar o petróleo, as armas nucleares, a tecnologia, a água, o alimento, etc. Há algo de podre no reino da Dinamarca! Não é possível considerar que temos a mesma parcela de culpa na degradação do meio ambiente. A conta diz que 1 bilhão de pessoas são responsáveis pela maior parte da destruição dos recursos globais que, em tese, pertencem a toda humanidade de 7 bilhões de pessoas. O discurso ecológico não pode vir esvaziado dos contextos histórico, político, econômico e social.
A ecologia não é neutra. Pretende–se preservar a biodiversidade da Amazônia enquanto grandes multinacionais se vestem de “publicidade verde” e escondem o impacto dos transgênicos na natureza, quando não se produz plantas e sementes mais resistentes às pragas, mas plantas resistentes aos pesticidas fabricados por essas multinacionais (Monsanto, Sandoz–Ciba–Geigy, Dekalb, Pfizer, Upjohn, Shell, ICI), completando o ciclo vicioso do lucro em nome da maior produtividade e oferta de alimento. Contudo, 1 bilhão de pessoas passam fome no mundo. Além disso, não há estudos confiáveis que possam garantir que os transgênicos não provoquem uma contaminação genética na biodiversidade dos ecossistemas.
Grandes empresas aderiram ao discurso “politicamente correto” da preservação do meio ambiente e transformaram–no num “fator” também a ser consumido. Pensando no futuro do Planeta há inúmeras soluções tecnológicas, até um carro movido a oxigênio... Entretanto, não acreditamos nas empresas como líderes e promotoras das mudanças de “novos hábitos” e “consciências” de consumo. A mudança deverá partir de cada cidadão por meio da educação e de novas atitudes frente ao mundo. Isso, talvez, intimaria as indústrias a reciclar o atual modelo de produção e consumo. Nessa queda de braço a sociedade civil precisa se mobilizar, recuperar seu papel de formadora de consciência pública, zelar pelo bem–comum e fazer renascer o espírito comunitário. Somente assim enfrentaremos o duro jogo político, de cartas marcadas, de interesses e ganâncias das grandes corporações. Até aqui, consentimos e endossamos o atual estilo de vida e nada mudará significativamente enquanto a opinião pública permanecer adormecida.
Roberto Vincenzi Kusmine Professor e Mestre em História
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